8h36
“Estrada para Ythaca” vence em Tiradentes
Por José Márcio Mendonça
TIRADENTES - A decisão dos cinco membros do júri da 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes de escolher o longa-metragem cearense “Estrada para Ythaca” como o melhor filme do festival sanciona uma tendência observada nesta edição da tradicional festa mineira, que foi realizada entre os dias 22 e 30 de janeiro: os filmes de autoria coletiva: co-dirigidos ou co-participativos.
Dos 23 filmes selecionados para serem exibidos na cidade histórica, nada menos de 7 tiveram sua direção dividida. Sem contar algumas dezenas de curtas dos mais de 100 exibidos com a mesma tendência. “Estrada para Ythaca” leva essa situação quase ao exagero. Foi realizado por quatro diretores: Guto Parente, Pedro Diógenes e os irmãos Luiz Pretti e Ricardo Pretti. O filme ganhou também o prêmio do júri jovem, dentro da Mostra Aurora, dedicada aos diretores que realizam o primeiro ou segundo longa-metragem. Os diretores são também os atores da trama.
O que não quer dizer que “Estrada para Ythaca” tenha chamado a atenção por esta característica apenas. O filme causou impacto tanto no público quanto no grande número de especialistas presentes na mostra. O debate deles com a crítica foi um dos mais concorridos – tanto quanto aquele que teve a presença do homenageado do festival neste ano, Karim Aïnouz, de “Viajo porque preciso, voltou porque te amo”, que não concorria aos prêmios.
De acordo com o jornalista d’O Estado de S. Paulo e membro do júri da crítica da mostra, Luiz Carlos Merten, o filme chamou a atenção por suas qualidades e é “uma aposta em um cinema ousado e vigoroso, realizado coletivamente e que aponta para formas mais cooperativas de se produzir.”
O júri jovem premiou “Estrada para Ythaca” “por se lançar a um projeto arriscado de cinema, que contempla tradição e modernidade, percurso e chegada, desagregação e amizade; por fazer da falta aquilo que move os impasses e impulsos de uma geração; por transformar a precariedade em recurso expressivo e a impossibilidade em potência; e para que o caminho percorrido possa se desdobrar em outros, vividos e imaginados, perigosos e desconhecidos, aventureiros e maravilhosos”.
Durante os diversos debates paralelos à exibição dos filmes, todos com grande afluência de público, essa “moda” foi muito ressaltada (confira nos links abaixo). A maioria dos debatedores, porém, não sabia dizer se é uma tendência que veio para ficar ou simplesmente uma coincidência, uma linha eventual na cinematografia brasileira ou um caminho. De qualquer modo, como lembrou o crítico e professor José Carlos Avellar, do Rio de Janeiro, é algo que merece ser investigado.
Outro tema recorrente nos debates sobre os caminhos atuais do cinema brasileiro, visível também na quantidade de longas com essa linha, foi o que Avellar chamou de “boom” do documentário no Brasil. Segundo o crítico carioca, com uma linha ainda mais restrita: o documentário personalista, centrado numa pessoa, num pequeno grupo, realmente conhecidos e quase sempre de sucesso. Avellar chegou a lembrar que tal movimento às vezes atinge longas que são, formalmente, de ficção. Lembrou os casos específicos de “Dois Filhos de Francisco” e “Lula, o filho do Brasil”.
Também sobre esse tema o debate foi inconclusivo, apenas uma constatação do fenômeno, sem explicações. Mas, curiosamente, o filme de Karim Aïnouz e Marcelo Gomes, apresentado na abertura do festival pode trazer uma vereda. “Viajo porque preciso, volto porque te amo” nasceu como um registro do sertão nordestino, portanto como documentário. Anos depois, os autores criaram um personagem ficcional e o inseriram na obra.
Recorrentes também foram as queixas a respeito dos problemas de distribuição e exibição dos filmes brasileiros, de longas e de curtas-metragens. Mas nenhuma discussão mais aprofundada sobre a questão da indústria cinematográfica brasileira como um todo.
Os premiados
Prêmio Aurora de Melhor Filme – “Estrada para Ythaca”, de Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Diogenes e Ricardo Pretti (CE)
Júri Jovem
Menção Honrosa – “Mulher à Tarde”, de Affonso Uchoa (MG)
Prêmio Aurora de Melhor Filme – “Estrada para Ythaca”, de Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Diogenes e Ricardo Pretti (CE)
Júri Popular
Melhor Curta – Mostra Foco – “Obra-Prima”, de Andréa Midori Simão e Thiago Faelli (SP)
Melhor Curta – Mostra Panorama – “Recife Frio”, de Kleber Mendonça Filho (PE)
Melhor Longa – “Herbert de Perto”, de Roberto Berliner e Pedro Bronz (RJ)
Prêmio Aquisição Canal Brasil
“O Filme Mais Violento do Mundo”, de Gilberto Scarpa (MG)
LEIA MAIS:
MinC abre inscrições para os editais de produção audiovisual
“Viajo porque preciso” abre Tiradentes
FOTO: Equipe do filme “Estrada para Ythaca”. CRÉDITO: Leonardo Lara/Divulgação

